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Jurássico Ym ao Lado de Jackie Bernard.

18 set 2014

Jurassico Ym ao Lado de Jackie Bernard.

Jackie Bernard.

Me recordo que quando me “afundei” no mundo da música Jamaicana, levei um gosto que já tinha em outras músicas que eu apreciava, que nada mais era do que o gosto por vozes peculiares, apesar de achar magnífico os donos de vocais virtuosos e potentes, meu gosto maior sempre foi por artistas de vozes que você jamais imaginaria cantando(caso não soubesse que era um cantor, aquela pessoa), sempre me encantei com “estranhas” vozes como Nelson Cavaquinho ou Aniceto do Império, ou vozes frágeis como a do mestre João Gilberto.

Bom, com a música da Jamaica não foi diferente e logo identifiquei em vozes anasaladas como a de Larry Marshall ou a aparentemente simples de Joe Higgs, as minhas favoritas… junto veio a descoberta que mais me chamou a atenção, a rouca e frágil voz de Jackie Bernard, o líder do trio vocal Kingstonians.

Passei anos da minha vida escutando tudo que Jackie gravou, seja com os Kingstonians, Tennors, Harmonizers, Harmonians ou solo, achava ele simplesmente genial e único.

Eis que surge em 2010 a oportunidade de visitar a Jamaica e la vou eu… ao chegar na ilha me recordo que logo no primeiro dia o nosso guia-amigo, Chester Synmoie(r.i.p.) nos perguntou qual seria o mote da trip, locais que gostariamos de conhecer e os artistas também, enquanto rolava uma discussão entre todos sobre o que fazer, eu tinha apenas um pedido principal(todos outros obviamente seriam bem vindos), conhecer o tal Jackie Bernard.

Chester disse que “ok”, mas atentou para que Jackie já não era exatamente um “cantor”, e que vivia esquecido e em situação “de rua”, isso me deixou ainda mais curioso e convicto de que tinha de conhece-lo, então Chester nos arranjou um carro e la fomos, eu e Greg Fernandes conhecer o Mr. Singerman.

Quando chegamos em seu bairro(periferia de Kingston, acerca de Trenchtown), vimos Jackie atravessando a rua, e descumprindo uma regra de não sair do carro naquele bairro, caminhamos rapidamente em sua direção o cumprimentos e o abraçamos, ele ficou meio atônito e sem reação, seguimos para o estúdio de Bunny Lee para uma sessão de dubs.

Ao chegar logo puxamos papo e explicamos quem eramos, de onde conheciamos ele, cantamos músicas que ele já não lembrava mais ser o dono… e ai que tudo mudou, Jackie ali totalmente frágil(não devia pesar mais que 60kg, usava roupas sujas e rasgadas, tinha mau cheiro forte…) se emocionou e nos convidou para uma rodada de rum em um boteco ao lado do estúdio, fomos.

Pagamos uma garrafa de rum ao nosso ídolo e sacamos meia duzia de red stripes pra acompanhar o papo, que a esta altura já nos emocionava diante do estado indigente que aquele importante cantor se encontrava. Jackie emocionado e antes de começarmos a gravar nos pediu “por favor, me levem para o Brasil”.

Gravamos nossa sessão que foi carregada de emoção tanto da nossa parte quanto da dele e de seu irmão(membro original dos Kingstonians e que segundo informações, morreu pouco depois de nossa visita a ilha), continuamos nossa trip por semanas, sempre lembrando daquilo tudo.

Ao voltarmos para o Brasil nos empenhamos a realizar o desejo dele(e sonho nosso), trazer Jackie Bernard ao Brasil, foi tudo meio complicado por conta do isolamento dele, de suas condições, falta de habilidade para cantar, alcoolismo e outros fatores mais, porém, rolou!

Quando Jackie chegou no aeroporto de Guarulhos no ano de 2011, nós desacreditamos ao vê-lo com apenas uma mochila vazia, ele pelo contrário, se espantou de alegria a nos reconhecer no saguão. Seguimos de carro papeando e cantando e recebendo informações que soavam como um soco em nossa mente, Bernard jamais havia saído da Jamaica, jamais havia entrado em um avião, não cantava há 40 anos…

Aquilo foi comovendo a gente cada vez mais, e aumentando o laço que começamos a construir la trás em 2010. Tivemos inúmeras histórias nestes mais de 30 dias que passamos juntos, poderia escrever mais milhares de linhas sobre o que vivemos, mas fica difícil colocar tudo aqui, mas estes momentos jamais saíram de nossa memória, jamais!

Alias, como esquecer de dias que saímos para tomar um pileque em algum boteco no centro de São Paulo e voltarmos já bem “altos”, e eu já meio rouco, cantando suas músicas e tentando imitar sua voz e ela rindo de soluçar, de pedir para parar que precisava ir ao banheiro se não ia fazer nas calças…

Ou esquecer das nossas sessões de futebol as quartas? Ele amava futebol, a cada lance faltoso bradava “bloodclats” e “rasclats” e nos questionava em um patois difícil de entender, por que nosso futebol era tão violento! Também adoravamos escutar ele contar sobre seu medo de vampiros que ele alegava assombrar Kingston…

Enfim, particularidades e momentos aparte, confesso que tudo que vivemos no íntimo com Jackie, não se compara com o momento que compartilhamos com todos, o show!

Aquele dia foi mágico, me lembro de termos armado um camarim com frutas, pizzas, snacks, bebidas… e quando chegamos ao Teatro Coletivo, Jackie preferiu apenas um canto no balcão do bar, ali se instalou com sua cerveja quente, e ficou alternando audição da nossa sessão de discos, com papos, autógrafos e fotos com quem chegasse e pedisse… algo que nunca vi em minha vida, não daquela maneira.

O show, bom, acho que não preciso detalhar muito, pois mesmo quem não foi pode conferir em vídeos um Jackie atônito e um publico ainda mais. Eles cantando todas músicas e ele perdendo as palavras e com olhos marejados d’água… eu, personagem oculto neste dia, de canto não contive minhas lagrimas que contia desde o seu encontro em 2010 lá em Kingston.

Seguimos por semanas juntos, Bernard ainda se apresentou em BH(noite memorável e que pode ser conferida na integra aqui:http://www.mixcloud.com/zumberto/jackie-bernard-090411-studio-bar/ ), reencontrou amigos que não via há décadas dos Skatalites, esteve com a gente em diversas noites de farra(como na Virada Cultural), participou de alguns outros pequenos shows, ensaiou mais um bocado(onde era surreal de ver ele se sentindo grande novamente, parando a banda e ensinando detalhes, chamando os músicos…), contou muitas histórias e trocamos muitas experiências.

Me lembro que no fim dessa jornada, eu e Jackie seguiamos para o aeroporto em um clima meio triste, ambos em silêncio, o som baixo tocava algo de Sam Cooke(um dos ídolos de Jackie), até que ele quebrou o silêncio me agradecendo(em nome de toda equipe y&m) por toda experiência vivida, eu rapidamente o interrompi e disse que eu deveria o agradecer, ele insistiu e disse:

“Não, pois vocês são os meus anjos da guarda, eu não tinha mais esperança algum de um dia cantar novamente, de me sentir um artista, de sair da Jamaica, eu se quer imaginava que ainda lembravam de mim, não tinha ideia da força da minha música, e vocês me resgataram, vocês são meus anjos da guarda.”

Eu não tive muita reação, afinal, era o meu sonho mas naquele momento eu percebi que também era o sonho dele.

Jackie se foi, perdemos o contato, ele reapareceu meses atrás graças ao meu amigo Rafa da High Vibes que mora em Kingston, podemos ajuda-lo a tentar superar outra barra, barra que ele parecia estar conseguindo superar com o apoio massivo que ele recebeu de seu publico.

Tudo isso me fez pensar novamente em organizar outro concerto de Jackie, isso chegou até ele, conversamos por telefone, ele estava radiante, ensaiando sozinho em casa e já planejando sua volta, estavamos iniciando os trâmites burocráticos para que isso acontecesse em dezembro.

Porém Jackie se foi, desta vez para a eternidade.

Estou muito chateado com sua passagem, mesmo sabendo que sua história de sofrimento descrita na composição “Sufferer” de 1968, enfim teve o seu fim. Parece até que perdi um familiar, tive muito contato com Jamaicanos que são meus ídolos, porém nada se compara ao laço que construí com Bernard.

Então eu realmente espero que Cebert Bernard, tenha a dignidade que lhe faltou em vida, na eternidade, gostaria de poder ter o encontrado em vida novamente ou ao menos ir a Jamaica me despedir dele neste momento, porém nada disso é possível, então fica aqui meu relato em homenagem ao meu amigo “Original”

Esta música foi escrita por mim, aprovada e gravada por ele(no estúdio do Quilombo Hi Fi em 2011), uma homenagem para todos artistas e amigos que ele havia perdido na vida, um tributo ao imortais do passado(mas que para sempre serão eternos através de suas obras).

Hoje ela é o meu tributo ao amigo/ídolo que perdi.

Jackie, saudades.

Fonte: Jurassico Ym

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