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REGGAE TOTAL ENTREVISTA… NORRIS COLE

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Conheça a história do fundador e ex-integrante do trio The Pioneers, o jamaicano Norris Cole, ou Sidney Crooks, nome de registro que usou na época de ouro do trio. Saiba como as opiniões, a personalidade e a sensibilidade artística fizeram deste homem um dos grandes nomes do Reggae mundial e como a sua história se mistura a própria história do reggae.

 

Por Tiara Sousa

 

… na Jamaica não tem que ter medo de nada, pois lá se for burro, você pode morrer, mas se for esperto, inteligente, você pode ser um herói, eu era um herói…” (Norris Cole)

 

 

Reggae Total – Como começou a sua história com o reggae?

 

 

Norris Cole – Um dia eu disse que seria um cantor, compositor e produtor, então fui pra Saint Catherine (interior onde residia Eric Donaldson), logo passei a visitar alguns clubes onde tinham apresentações de artistas, eram como show de talentos, então eu e meu irmão decidimos que íamos formar um grupo, e rapidamente migrei pra Kingston, que era a minha grande vontade, pois era ali que aconteciam as coisas, os estúdios, as produções, os cantores. O engraçado é que fui morar exatamente bem do lado de Bob Marley, era tipo uma favela, haviam casas velhas, árvores, era uma área pobre, Bob ainda não tinha sucesso, ninguém o conhecia, depois que começaram a surgir os primeiros hits dele na Jamaica. Comecei então o grupo “The Spetacullars”, por volta do ano de 1961, e fui morar em Denatown. O grupo era formado por quatro membros, eu, meu irmão Derrick Crooks e mais dois rapazes, nós ensaiávamos embaixo de uma ponte e todas as estudantes da escola lá perto paravam para nos escutar e nos ver ensaiando. Nessa época fomos a um pequeno estúdio cantar uma música, fizemos a base pra musica, mas o cara que ia liderar a voz principal não apareceu e o dono do estúdio nos pôs pra correr, então o The Spetacullars não foi pra frente.

 

 

Reggae Total – Você ficou conhecido por ser integrante e fundador de um grupo que fez bastante sucesso na Jamaica e no mundo, o trio vocal The Pioneers, fale sobre essa experiência:

 

 

Norris Cole – Um dia eu estava olhando no dicionário, e vi o nome e o significado da palavra Pioneers (pioneiros), que dizia “Um que faz a estrada pra todos”, ou “Um que abre o caminho pra todos”, amei o nome e decidi colocar esse nome no meu grupo, então chamei meu irmão, e chamei um cara chamado Winston, e essa foi a primeira formação do The Pioneers, eu, meu irmão Derrick e Winston. A primeira musica que fizemos foi “Good Nanni”, a minha mãe investiu pra nós gravarmos a música, ela sempre investia, pois como eu ainda não trabalhava e vivia lutando na música, sempre fui louco por música e tinha talento, sempre apoiou, ela era cantora de igreja, onde eu percebi e trabalhei meu dom. Depois fizemos outra musica, e essa foi um hit na Jamaica, depois meu irmão foi trabalhar numa empresa, Winston foi para o Canadá, onde reside até hoje e eu decidi continuar sozinho até quando mais tarde o grupo voltou a ter três integrantes, dessa vez eu, conhecido na época como Sidney, Jackie e George, que foi a formação de sucesso.

 

 

Reggae Total – Soube que foi você quem convidou os integrantes Jack e George para fazer parte do trio “The Pioneers”. Como os conheceu e como identificou neles o talento necessário?

 

Norris Cole – Encontrei o lendário produtor, Joe Gibs, que me convidou para trabalhar com ele, e eu fui. Daí fui ao estúdio para fazer uma música, então fui lá fora para usar o banheiro e vi um garotinho sentado, era o Jackie Robinson, daí ele me falou que estava afim de gravar alguma coisa e estava atrás de alguém pra produzir ele, eu disse “ok, entra aqui comigo”, mostrei a música e pedi que ele cantasse uma parte com a voz aguda e eu cantava outra com a minha voz grave, ele fez exatamente o que eu pedi, fiquei tão encantado que disse, hoje você é um membro do “The Pioneers”. Daí ficamos eu e Jack,. Depois conhecemos Leslie Kong, um dos grandes produtores da Jamaica, então conhecemos o George, ele fazia sempre backing vocal pro Desmond Dekker, falamos com o produtor sobre convidá-lo para o grupo, mas o produtor disse não, falou que eu e Jackie já tínhamos uma voz que estava vendendo e que o publico já estava gostando, e não queria mudar o som do grupo, mas eu disse sim, insisti como líder do grupo, e contrariando o pensamento do produtor, o que já estava fazendo sucesso sem o George continuou a fazer sucesso com ele, pois emplacamos mais um hit e ele se tornou o hit numero 1 na Jamaica e na Inglaterra.

 

Reggae Total – E como ocorreu o fim da parceria profissional entre o “The Pioneers”. e o Joe Gibs?

 

Norris Cole – Emplacamos vários hits, viramos uns dos grandes nomes da Jamaica, as musicas foram pra fora, tinha gente que comprava e levava pra fora e começamos a fazer sucesso na Inglaterra, ficamos sabendo que já éramos sucesso na Europa, então tendo dimensão do nosso sucesso, decidimos falar com Gibs sobre dinheiro, e ele pegou um facão e saiu atrás de nós, e ele dizia corre, corre, (risos), daí saímos de lá e não voltamos mais (risos).

 

Reggae Total – Aproveitando que abordou o assunto sobre hits na Inglaterra, corrija-me se estiver equivocada, mas o “The Pioneers” foi um dos desbravadores do reggae na Europa e no mundo. Como se deu esse processo e quais lugares além da Inglaterra vocês emplacaram hits e fizeram shows?

 

Norris Cole – Nós nos tornamos ídolos, e gravamos uma música que foi primeiro lugar na Inglaterra, em 1969, depois de muitos shows na Jamaica fomos chamados a fazer um show na Inglaterra, e fomos fazer a primeira viagem, na mesma época que fomos todos começaram a ir, mas o “The Pioneers” era diferente, nos destacávamos, pois quando nos apresentávamos havia algo diferente, fizemos muito sucesso na Alemanha, Japão, Inglaterra e entre outros.

 

Reggae Total – E quando o “The Pioneers” de fato chegou ao fim?

 

Norris Cole – É difícil dizer que terminou, pois apesar de não estarmos mais juntos, continuamos tendo respeito um pelo outro, individual, agora mesmo se fosse o caso de tocarmos juntos mais uma vez teríamos o mesmo som, temos um som dos três que nunca se perde, eu jamais diria que acabou, pois não tenho nada contra os dois.

 

Reggae Total – Mas pelo que sabemos, há algumas discordâncias entre você e outros membros do trio quanto a utilização do nome do grupo, fale sobre isso e esclareça se é verdade que houve um processo a cerca desse assunto.

 

Norris Cole – Como disse, tenho respeito por eles, a única coisa que sou contra é sair cantando, usando o nome do grupo, eu não faço isso, mesmo sendo o fundador, pois quem conhece o trabalho do “The Pioneers” sabe que são três membros, sabe quem são esses membros, e se ver o anuncio de um show do grupo vai esperando ver esses caras e escutar o som que essas três vozes faziam, eu não posso fazer isso com o publico, o nome Norris Cole já é grande e forte o suficiente para eu usar somente ele. Pensando assim, entrei com uma ação pra que não usassem o nome “The Pioneers” e sim Jack e George do grupo “The Pioneers”.

Reggae Total – Você além de cantor e compositor é produtor musical e tem um histórico de sempre produzir sucessos, nessa época do “The Pioneers” e da grande aceitação que vinham tendo na Jamaica e na Europa você deixou de lado a produção ou conciliou ambos?

 

Norris Cole – Mesmo fazendo todo esse sucesso sempre estive interessado em produção de outros artistas, daí quando voltei da turnê na Inglaterra fui a Jamaica produzir o Gregory Isaacs, e a música “All i have is Love”, fiz mais sucesso na produção com Gregory do que com o grupo, ganhei mais dinheiro nas minhas produções do que com o “The Pioneers”

 

Reggae Total – Como um produtor de sucesso, diga o que falta para o Reggae brasileiro? Faltam bons produtores?

 

Norris Cole – Se o Brasil tivesse bons produtores como tivemos na época, tudo na mão, os artistas locais teriam êxito, agora mesmo uns caras aqui estão produzindo música somente para o Maranhão, eu não faço isso, produzo musica para o Japão, Jamaica, Inglaterra, América, Canadá.

 

Reggae Total – Como um lugar conhecido como Jamaica brasileira não tem musica para fazer sucesso?

 

Norris Cole – Não sei, acho que as pessoas tem receio de cobrar cachê, ou até se auto valorizar, eu mesmo não ando fazendo show por aí, eles não vão ligar pra mim, sabem que não vou cobrar menos que o justo, tenho coisas a fazer lá fora, não tenho tempo a perder, amo produzir artistas, agora mesmo estou até produzindo meu filho, o Júnior, que já é querido lá fora, na Inglaterra, no Canadá, sabe porque, porque produzo ele bem, e ele só tem 10 anos, começou aos 7. Qualquer artista que vem para eu produzi-lo sabe que terá uma produção, porque eu moro aqui, minha esposa é daqui, meu filho vive aqui, mas minha cabeça não está aqui, aqui não tem dinheiro, amo aqui, mas em se tratando do meu trabalho me valorizo, venho de longe, tenho nome e história então não faço isso, eu produzi e tenho produzido grandes artistas, Gregory Isaacs, Márcia Griffts, Carlene Davis, Owen Gray, Eric Donaldson, Winston Groove, Johny Orlando, Dennis Brown, Donna Marie, Jackie Brown George Dekker Tyrone Taylor, Brent Dowe, Fredy Mckay, Dennis Alcapone, Delroy Wilson, Justin Hinds, Alton Ellis. Lloyd Parks, Eclips Band, George Faith, entre outros.

 

Reggae Total – Fale sobre o seu último álbum, “Peace, Justice, Liberty” (Paz, justiça, Liberdade) e dos grandes nomes que participaram da gravação, dentre eles o baixista Lloyd Parks, o guitarrista Mikey Chung, o tecladista Lloyd “Obeah” Denton e o mago do sax Dean Fraser.

 

Norris Cole – Sempre tive um bom relacionamento com esses músicos, gosto de gravar com eles porque além de bons, são grandes nomes da musica e quando o nome deles sai atrás de um álbum esse álbum repercute no mundo inteiro, pois esses são os melhores da Jamaica.

 

Reggae Total – Julho de 2000 foi a sua primeira vez no Brasil, um show com um público de 15 mil pessoas, conte sobre sua primeira vez aqui, e como um renomado artista jamaicano acaba por conhecer e se casar com uma maranhense?

 

Norris Cole – A minha primeira vez no Brasil fez com que eu viesse outras vezes ao Brasil, porque havia uma garota chamada Conceição que eu tive o prazer de conhecer, ficamos amigos e prometi que quando voltasse nós iríamos nos conhecer melhor, quando retornei ao Brasil já foi com proposta de casamento, eu tinha 52 anos e ela ainda ia fazer 16, então eu a levei a Jamaica, casamos lá, um tempo depois voltamos, e casamos aqui também, aluguei um apartamento no Calhau, moramos um tempo lá, ficamos entre Jamaica e São Luís.

 

Reggae Total – Na época do “The Pioneers” você e Bob Marley se encontraram em algum show.

 

Norris Cole – Quando estávamos na Inglaterra, eu, Bob e Peter Tosh nos encontrávamos pra jogar bola, o problema é que eu e Bob sempre tivemos problemas.

 

Reggae Total – Que tipo de problemas? Houve alguma ocasião para que não houvesse uma relação harmônica entre você e Bob Marley?

 

Norris Cole – Uma certa vez gravei a música “Wainting in vain” do Bob Marley e fiz uma versão que fez mais sucesso que a original, então um jornal local colocou na primeira página “A versão de Sidney Crooks é muito boa”, logo Bob Marley me chamou até o hotel onde estava, eu sabia que iria apanhar uma boa taca, mas eu não estava com medo, na Jamaica não tem que ter medo de nada, pois lá se for burro, você pode morrer, mas se for esperto, inteligente, você pode ser um herói, eu era um herói, (risos). Chegando até o hotel bati na porta e Bob disse “entra seu urubu”, aí eu olhei do outro lado do quarto e vi os capangas mais pesados da Jamaica, os seguranças de Bob, e aí meus pés começaram a tremer dentro dos sapatos, porque vi a mão de um dos caras perigosos que estavam a serviço de Bob e ela era cinco da minha. E Bob me disse, “quem te mandou copiar minha música”, e eu disse “eu pago os direitos autorais”, e ele disse batendo no peito, “eu sou os meus direitos autorais, eu sou o meu primeiro direito autoral”, então ele ligou pra empresa de direitos, e o cara que atendeu disse, “Norris já pagou tudo”, e o baterista da banda dele que estava no quarto disse “calma Bob, ele é nosso chegado, é nosso amigo, porque você está tratando ele assim, e daí Bob me olhou e me abraçou (risos).

 

Reggae Total – Por falar em direitos autorais, muitos artistas lucram bastante com eles, outros nem tanto, em quais dessas opções você se encaixa?

 

Norris Cole – Atualmente existem quatro empresas que pagam direitos autorais pra mim, sou membro desde 1979 de uma das grandes empresas de direitos autorais do mundo, a mesma da Madonna e outros artistas renomados. Com exceção do Brasil, Paraguai e China, os outros países pagam os direitos, esse é o principal sustento, meu e da minha família, muitos ficam curiosos, (risos), se perguntam como eu vivo quando não estou fazendo show ou produzindo, eu também sou compositor, caso esqueçam, já escrevi muitas músicas, muitos sucessos, se quisesse poderia viver bem só de direitos autorais, (risos).

 

Reggae Total – Fale sobre o trabalho que já realizou com os artistas Tito Simon, Donna Marie e John Holt?

 

Norris Cole – Tito Simon era uns dos caras maravilhosos do reggae, produzir ele era muito fácil, sempre cooperou, ele passou seis meses conosco aqui em 2013 e foi fantástico, fizemos diversas apresentações, diferente da Donna Marie, que é difícil de se trabalhar, pois ela não lembra de onde veio, artista ingrata não vai tão longe, você tem que lembrar de onde veio, tem que olhar pra trás, dar valor, isso é tudo que eu tenho a dizer sobre ela. Quanto ao John Holt, só fiz uma música com ele, a “My mistake”.

 

Reggae Total – Você já emplacou muito “melô” aqui no Maranhão, Melô de Payaka, Melô da Danielle, Melô do Amor, Melô de Jussatuba, Melô dos Motoqueiros, Melô dos 3 poderes, e muitos outros. Como se sente sendo o campeão dos melôs?

 

Norris Cole – Por isso eu amo o Maranhão (risos), eu amo o maranhão porque quando eu canto as pessoas amam e ficam pedindo melôs, saibam que tem mais melô por vir. Um cara de Brasília comprou 10, a Radiola Águia de ouro comprou 8, quero dar mais melôs para os maranhenses!

 

Reggae Total – Soube que Owen Gray é um grande ídolo seu e que exerce bastante influencia na sua música. O que há no som do Owen que torna a música tão especial?

 

Norris Cole – É o cara que inspirou as minhas músicas desde quando eu era um garotinho. O que faz dele especial é que ele é como um relâmpago, as letras dele, as músicas dele, é diferente, ele passeia por todas as formas e estilos de cantar, é isso que inspira tantos fãs e artistas, a diferença. E é por isso que ainda garoto eu guardava todo o dinheiro do lanche da escola pra poder assistir aos shows de Owen Gray.

 

Reggae Total – Como você se sente ao saber que de fã de Owen que guardava o dinheiro do lanche para ir aos shows do ídolo, você se tornou o ídolo ao qual os jovens guardavam o dinheiro do lanche para vê-lo, assistir ao seu show?

 

Norris Cole – Quando fiz isso para ver o Owen, ele foi tão bem na apresentação que nem senti falta do dinheiro do lanche, e espero que isso tenha ocorrido com os milhares de fãs que o “The Pioneers” teve, que eu tenho, pois vale a pena quando o artista vai lá e arrebenta, e faz aquilo com vontade.

 

Reggae Total – Fale sobre o documentário que está sendo produzido sobre você:

 

Norris Cole – Todos os grandes nomes do reggae, da música no Maranhão, no Brasil, na Jamaica, e no mundo que participaram direta ou indiretamente da minha história estarão nesse documentário, dando seus depoimentos. Mais do que a minha história, terão a história do próprio reggae e de superação, não apenas em vídeo, mas também escrita, pois acompanha um livro contando toda a minha história.

 

Reggae Total – Há uma previsão de data para o lançamento do livro e do documentário? E porque as pessoas devem ler o livro com a história de Norris Cole?

 

Norris Cole – O livro e o DVD serão lançados provavelmente esse ano (2015), ainda sem data definida. As pessoas devem ler o meu livro, pois eu saí do nada, saí de tempestade, de chuva, de sol, e é por isso que as pessoas precisam ler o livro, você nunca deve desistir, você tem que lutar, e eu sou um lutador, já estive embaixo, no meio e em cima, liso, com grana, milionário, é esses tipos de coisas sobre a minha vida que devem saber.

 

 

Reggae Total – São Luís não ficou conhecida como a ilha do reggae à toa, aqui grande parte das pessoas amam reggae, e é em nome dessas pessoas que pergunto, Norris Cole, o que é o reggae pra você, considerando o fato de que pra muitos se tornou mais fonte de renda do que arte ou prazer?

 

Norris Cole – Reggae, música, nem tudo me compra, embora costume fazer contrato pedindo cinqüenta por cento adiantados como garantia, e o restante pouco antes do deslocamento do hotel para o show, se na hora o promotor não tiver o dinheiro, mas se comprometer de subir ao palco e dizer isso ao publico, se justificar e comunicar aos fãs, eu vou lá e faço o show assim mesmo, prefiro fazer isso a deixar os fãs na mão, eles são mais importantes, sem fãs não há Norris Cole. Fãs em primeiro lugar.

 

Reggae Total – Por fim e pra não perder o hábito, deixe uma mensagem a todos os amigos do Reggae Total.

 

Norris Cole – Quero que saibam que esta entrevista foi boa, o Reggae Total é bem vindo e fiquem de olho em mais informações minhas e de outros artistas no Reggae Total.

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